domingo, 28 de novembro de 2010

Matizes de outono, tempo de reflexão...

Matizes de outono, tempo de reflexão...

José Antônio Veronese Mascia

“Não entendemos o mundo porque não é essa a nossa tarefa na terra”.

Imre Kertész (Prêmio Nobel de Literatura/2002)

- Doutor Mássimo, o paciente das 15 horas chegou.

- Por favor, convide-o a entrar, Dona Estela.

- Egon, há quanto tempo não vens consultar!

- Pois é Mássimo, muitos anos passaram e nem me dei conta das revisões periódicas, pois estava envolvido com o meu trabalho e somente agora resolvi cuidar de mim. Como tu bem sabes, eu me formei como contador e exerci a profissão até a poucos anos, quando descobri minha vocação de professor. Graduei-me em História, fiz mestrado e doutorado e atualmente estou lecionando na PUC em Porto Alegre. Neste meio tempo casei e tive filhos, tendo escrito vários livros. Com a minha mudança de profissão, apesar de ganhar menos, sinto-me realizado. Entretanto, a minha esposa é que se acostumou com o consumismo exagerado, gastando mais do que podíamos. Com isto, tive que optar por uma vida mais feliz e mais econômica. Resultado: fui obrigado a pedir a separação, mas mesmo assim continuei a educar e apoiar meus quatro filhos. Tirei uns dias de férias em meu sítio que construí nos tempos de fartura, para refletir e organizar uma nova vida. Uma casa simples, mas com uma vegetação aconchegante. Nos primeiros dias eu só chorava, sentia-me deprimido, sem vontade para nada, fazendo apenas uma comidinha para o gasto.

- Me conta Egon, o que aconteceu quando passaram esses piores dias.

- Pois aí que eu quero chegar. Comecei a reagir e tive ânimo para começar a ler alguns livros da biblioteca que colecionei durante toda a minha vida. Pensei comigo, é por aqui o caminho. Preciso repensar minha filosofia de vida e montá-la novamente. Após alguns dias cheguei à conclusão que necessitamos de quatro pilares para construir uma vida digna de ser vivida:

1. Criar raízes. Este primeiro pilar é muito importante, devendo começar na infância, florescer na juventude e firmar-se na vida adulta. É preciso escolher as pessoas que nos ajudarão a compô-lo, mantendo para o resto de nossas vidas. Certamente várias pessoas seguirão diferentes caminhos, algumas nos decepcionarão no trajeto, outras sofrerão acidentes de percurso e muitas nos acompanharão. É fundamental manter relacionamentos num círculo de amizades, ser associado de um clube, torcer por um time de futebol “do coração” ou mesmo seguir uma religião. O homem é um animal social e como tal devemos ter em mente o trecho da canção que diz: “triste é viver na solidão”...

2. Construir uma reputação. Da mesma forma que o primeiro este segundo pilar deve começar também na idade em que o nosso coração é mais puro, quase imaculado. Onde iremos buscar ferramentas para esta construção? Obviamente na família e a seguir na escola com nossos professores e colegas de aula. São muitos os perigos desta vida, para quem tem amor a dar aos outros e amor à vida. Portanto, devemos ter a máxima cautela neste caminho muitas vezes espinhoso e cheio de percalços. Cuidado: faz a fama, mas não te deita na cama!

- E os outros pilares Egon são mais difíceis de construir?

- É claro Mássimo, à medida que as coisas evoluem, aumentam as dificuldades. Os pilares têm a mesma altura e a mesma segurança, mas com estrutura diferente. Vamos adiante.

3. Constituir uma família. Será tão importante constituir uma família? Acredito que este é o verdadeiro sentido da vida. Exista Deus ou não, o que estamos fazendo aqui? De onde viemos, para onde vamos? Tudo é mistério. Somente de uma coisa eu tenho certeza: no momento que geramos um filho ou uma filha, o nosso código genético permanecerá na face da Terra, um pedaço de nós continuará vivendo. Isto se pensarmos unicamente no aspecto material, entretanto eu pessoalmente acredito que a parte espiritual é o que nos guia e o que realmente importa. Por que somente a espécie humana evoluiu e as demais não se modificaram? A família é a âncora no mar revolto da vida! Cuidado: esta âncora tem de ser de boa qualidade e ter manutenção constante, senão enferruja e pode deixar o navio à deriva.

- Egon, e o último pilar?

4. Viver o amor. Este é o mais difícil de encontrar e manter, pois ele pode ser confundido com outros sentimentos do ser humano. Amar se aprende amando, amar é dar sem esperar receber, amar é fazer outra pessoa feliz, amar é doação ao próximo, sentimento muito difícil quando o irmão está enfermo, ou quando está preso, ou mesmo quando está faminto e sedento. Geralmente quando se fala em amor, logo vem à mente a paixão própria dos casais enamorados. Paixão quer dizer sofrimento, por isso os jovens sofrem tanto quando amam e não são correspondidos. Por que o amor entre um homem e uma mulher, muitas vezes termina? Talvez porque não tenha sido amor e sim uma atração físico-química ou uma identificação intelectual. O amor deve ser construído dia a dia, atitude por atitude, carinho, respeito, compreensão, ajuda mútua e principalmente perdão. O amor vem com o passar dos anos. Toda regra tem exceção, pois para alguns pode ser “amor à primeira vista”. Para mim o termo correto é: “paixão à primeira vista”.

- Egon, eu sei que tu tens muito mais coisas para contar, na próxima vez continuaremos falando de filosofia e psicologia, ambas importantíssimas para o bem-estar do ser humano. Aliás, essas disciplinas juntamente com a ética deveriam constar no currículo do curso de medicina já no primeiro ano. Atualmente o homem sofre mais de crises existenciais do que doenças orgânicas, pois somos mutantes e como tais, nosso comportamento mudou muito no último século. Não podemos esquecer que nosso planeta é uma nave espacial conduzida pela Via Láctea que viaja sem destino num universo sem fim. Como terminará, ninguém sabe... Afinal, meu amigo, qual o motivo da consulta?

- Simplesmente eu queria conversar com alguém que tem a minha idade e fazer uma revisão cardiológica.

- Sabe Egon, desde que eu me formei em medicina, a cardiologia evoluiu muito com a sofisticação tecnológica, gerando uma infinidade de exames complementares. Entretanto, se o médico não fizer uma boa história clínica e um detalhado exame físico, o diagnóstico pode ficar comprometido. Aprendemos em medicina que “a clínica é soberana”. Atualmente controlamos as chamadas doenças crônicas não-infecciosas orientando o paciente a mudar o seu estilo de vida. Quando isso não for o bastante então prescrevemos medicamentos de uso contínuo. A medicina preventiva tem um axioma chamado de paradoxo preventivo: “um grande número de pessoas, expostas a um risco pequeno, pode gerar muito mais desfechos clínicos do que um número pequeno exposto ao alto risco”. A longevidade com qualidade está ligada ao conhecimento dos hábitos saudáveis de vida, embora muitas pessoas por desleixo não os adotem, principalmente quanto à alimentação correta e ao exercício físico diário, sem falar no famigerado tabagismo, que está aumentando entre as mulheres. Mas, vamos à revisão desse coração de 65 primaveras...

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