AMARCORD (Io mi ricordo)
José Antônio Veronese Mascia
Senso de humor é o sentimento que faz rir daquilo que o
deixaria louco de raiva se acontecesse com você.
Apparício Torelly (o “Barão de Itararé”)
1895 - 1971
Plantão do INPS
Quando cheguei para trabalhar como médico em Caxias, fui convidado a fazer plantão no INPS (atual Centro Especializado de Saúde), pois os médicos atuavam em dupla e um deles precisava tirar férias. Eu recém terminara minha residência num hospital especializado de Porto Alegre onde os pacientes já tinham passado por uma triagem clínica. O Pronto-socorro do INPS ficava na parte debaixo onde sempre tinha movimento, pois os casos excedentes do dia passavam para serem atendidos após as 17 horas. Bastava ter a “carteirinha do INPS”.
Às quatro da manhã o enfermeiro desce para me chamar no subsolo (mais um pouco e o plantonista dormia no Estádio Centenário) que agora é o anfiteatro.
- Doutor, tem um caso pro senhor lá em cima.
O médico já dormia com o traje de cirurgião, pois o Posto de Assistência Médica (PAM) tinha um bloco cirúrgico com condições de ser usado para pequenas cirurgias. A vestimenta era como o jaleco e a calça do Dr. Oz no programa da Oprah, sem as luzes dos holofotes e a câmera em ação, é claro.
- Muito bem, o que o cidadão sente?
- Doutor, eu brochei...
- Agora? Quatro da matina?
- Não doutor, foi no início da noite, mas como eu não conseguia dormir, resolvi dá uma passadinha aqui no plantão.
- Certo. Urgência é urgência. Faz o seguinte toma este medicamento de nome Pasuma, pois como diz o representante do laboratório: tome Pasuma e dê mais uma!
O gauchão
Passaram-se alguns anos e o INPS resolveu adotar o sistema “hospitalocêntrico”, pois a população de Caxias começou a aumentar muito na época do “milagre econômico” do Delfim Neto. Os quatro hospitais de cidade tinham plantão, o que realmente trouxe um avanço em termos de infra-estrutura para atender urgências e emergências. A “mordomia” do plantão melhorou com os bifes na chapa da cozinheira do Fátima, sem falar na televisão a cores (esta foi rateada entre os plantonistas).
Um dia a funcionária do hospital bate à porta do quarto do plantão:
- Doutor, tem uma consulta particular.
- O quê? Partica?
- É um paciente do Dr. Virvi (criador da Faculdade de Medicina de Caxias do Sul), mas como ele não está eu disse que tinha um outro médico muito bom.
Chego ao consultório e me deparo com um gauchão, pele escura crestada pelo sol, de bombacha, chapéu de aba larga, botas de cano longo, bigodão e lenço vermelho no pescoço. Maragato ou chimango? Não sabia distinguir pelo lenço, mas não deixei por menos e fiz aquele cumprimento de primeiro passar a palma da minha mão na dele e depois bater com o dorso da mesma no ombro do vivente. Ele me olhou e lascou:
- O senhor não é o “Dotor Verví”.
- Não, mas sou assistente dele. Mas me diga seu nome.
- Noely Meireles da Silva, mas pode me chamar de Nonô.
- E aí “seu” Nonô, o que sente o amigo?
Aí o gauchão com os olhos “rasos d’água” e com as mãos segurando a bolsa escrotal respondeu:
- Se não fosse essa dor “nos ovário” eu esperava pelo Dr. Verví.
Toque retal
A Gelcy era a enfermeira do turno da manhã. Era baixinha e tinha vários apelidos, uns dados pelos médicos outros pelos pacientes, mas foram dois que ficaram. “Pimentinha”, pois a sua brabeza era inversamente proporcional ao seu tamanho; e “Pé”, pois calçava 35. Um dia o paciente do leito 214-A queixava-se de hemorróidas. Receitei uma pomada e solicitei uma avaliação proctológica. No dia seguinte abro o prontuário e nada da avaliação, nem o pedido.
- Gelcy, onde está a avaliação do proctologista que eu pedi ontem para o paciente do 214-A?
- Deve estar aí no prontuário, pois aquele médico do dedão grosso (e deu um sorrisinho sarcástico) me pediu o material, eu aprontei tudo na bandeja e entreguei pra ele.
Qual não é minha surpresa quando abro o prontuário do 214-B e lá estava a avaliação proctológica. Quando entro no quarto para fazer a evolução, o paciente do leito B me pergunta:
- Doutor, que negócio é este de eu levar o dedo no rabo?
Madre de Diós! O procto trocou de paciente. Pra não perder a viagem, tentei consertar logo a trapalhada.
- O toque retal é de rotina, pra prevenir o câncer de próstata. Amanhã é a vez do teu companheiro de quarto.
Velhos tempos
No início da minha carreira eu atendia nos quatro hospitais de Caxias. Era uma loucura. Eu já deixava o eletrocardiógrafo no porta-malas do carro, pois os hospitais não tinham a imprescindível “muleta” do cardiologista. Era comum o atendimento domiciliar com o tradicional cafezinho pós-consulta. Às vezes atendíamos chamados de familiares de pacientes em Nova Roma do Sul, São Francisco de Paula, Nova Petrópolis e Farroupilha. Chamados à noite era comum. Quando eu “sentia” pela voz do familiar ao telefone, já ia dizendo: “levem o paciente para o hospital que nos encontraremos lá”.
Numa ocasião indiquei cirurgia de válvula mitral para uma paciente, a ser realizada em Porto Alegre. “Só se o senhor for conosco”, disse-me o marido. E lá fomos nós: o motorista, a paciente, o marido e eu. Assisti a cinecoronariografia e inclusive a cirurgia. No dia seguinte, quando a paciente estava melhor, comuniquei ao marido que não havia mais necessidade da minha presença, enfim ela estava no melhor hospital de cardiologia do Rio Grande do Sul. O marido protestou: “eu gostaria que o senhor ficasse até a alta”.
Vejam como era importante o relacionamento com os familiares dos pacientes. Eles convidavam pra churrasco, festa de 15 anos, bodas de ouro e “ai de ti se não fosse”. Não tinha UTI nos hospitais e quando começaram a funcionar, não tinha plantonista. Nós dávamos aulas para as enfermeiras, pois qualquer coisa diferente no monitor, elas tocavam um telefonema. Era comum os familiares buscarem o médico em casa.
É... Velhos tempos...
Parada cardíaca I
Em 1976 os cardiologistas concentraram seus pacientes no Hospital Fátima, originando a terceira UTI da cidade, com toda aparelhagem necessária para atender emergências cardíacas. Um dia, estou de plantão e chega a ambulância do INPS com um paciente portador de Infarto agudo do miocárdio que logo ao dar entrada na UTI apresenta uma parada cardíaca necessitando desfibrilação elétrica. Olho para o paciente e vejo que era o colega “Sérgio” Cercato que atendia no mesmo ambulatório do sindicato dos industriários, onde trabalhavámos.
Foi automático, peguei as pás do desfibrilador e desferi-lhe 400 joules na parede torácica. Graças a Deus, voltou ao ritmo sinusal. Depois da estabilização do paciente, olho para o prontuário e leio o nome, Ivan Cercato, vereador caxiense, 35 anos de idade. Era igual ao seu irmão médico, mais velho, o Sérgio “de verdade”. Depois fiquei sabendo que havia seu irmão gêmeo, Iran Cercato também médico, ex-goleiro dos tempos de futebol de salão, mas completamente diferente do Ivan, na fisionomia. Após a alta, nunca mais vi o vereador até saber de sua morte cinco anos depois.
Em 1998 foi a vez do Iran Cercato, médico do Esporte Clube Juventude, colocar quatro pontes, três de safena e uma mamária. O Ivan e ele eram gêmeos bivitelinos (não idênticos), haja vista a diferença de mais de vinte anos entre os eventos coronarianos de um e de outro.
Parada cardíaca II
Como o Hospital Fátima era referência em cardiologia, começou um verdadeiro acúmulo de pacientes cardiopatas com emergências “cabeludas”, exigindo que fosse ampliada e transferida para a ala norte. A atual UTI fica na ala nova. Tinha até uma enfermeira magra e alta, a Elizete, que era famosa pela sua massagem cardíaca. Ela colocava a tábua embaixo do tórax do paciente, subia na escadinha de dois degraus que ficava à beira do leito e cada compressão era acompanhada por um estímulo cardíaco visível no monitor.
Eis que um dia chega uma paciente com taquicardia atrial paroxística, já tendo sido submetida à terapêutica farmacológica da época, sem acontecer a reversão ao ritmo normal. Sua pressão estava baixando assustadoramente e não restava outra alternativa senão a cardioversão elétrica. Vem o anestesista para entubá-la e aplicar um anestésico apropriado para a ocasião. O aparelho tem um dispositivo chamado de sincronizador para evitar arritmias mais graves. Liguei o botão do sincronizador, regulei para 200 joules e... Nada. Com o botão ligado o cardioversor não funcionava. Estávamos num caminho sem volta: “vamos chocá-la” sem o sincronizador. Não deu outra: assistolia cardíaca. Linha isoelétrica no monitor. “Isto não podia ter acontecido”, pensei em voz alta.
- Elizete! Adrenalina e massagem cardíaca externa!
Após alguns segundos a paciente volta ao ritmo sinusal. Quando ela recobrou a consciência, logo me disse:
- Doutor, eu assisti tudo de um canto superior do quarto e me lembro quando o senhor disse: “Isto não podia ter acontecido” (sic).
Foro íntimo
Por forças das circunstâncias, um sistema novo que necessita instalar Internet banda larga no consultório, veio a calhar até economicamente, pois a minha conta telefônica, incluindo ADSL, despencou para metade do custo. Como eu sou cliente antigo de uma provedora na minha residência, resolvi contratá-la também para o consultório. Eis que a GaiatoPontoCom, notando que eu usava somente a ADSL deles sem requisitar os serviços da provedora Corbo, resolveu apelar para o telemarketing.
Toca o telefone.
- Alô. É o Dr. Mássimo?
- Sim.
- Aqui é da GaiatoPontoCom e gostaríamos de oferecer-lhe a provedora Corbo, pá-ti-pa-ta-tá...
- Eu já tenho provedora.
- Qual é a provedora?
- É foro íntimo.
- É o nome da provedora?
- Sim.
A assertiva saiu automática. Mas quem não odeia o telemarketing?
Entrou mudo e saiu calado
Entrou para consultar o seu Floribaldo, já na quarta idade e sua esposa como acompanhante. Ambos sentados à minha frente e ela dizia: “Flor, diz pro doutor, o que tu sentes”. E o “seu” Flor nada de falar, com o olhar parado. Neste instante senti um cheiro nauseabundo que foi aumentando. E a esposa repetia: “conta Flor, conta pro doutor tudo que tu sentes”. E aquele cheiro continuava a pairar no ar. Disfarcei, fui até a janela para abri-la, dizendo:
- O calor está insuportável hoje à tarde. Enquanto a senhora conta do que ele se queixa, peço pra minha secretária Estela fazer um eletro.
Quando ele se levanta, não deu pra deixar de notar uma enorme mancha escura na cadeira estofada. Educadamente a Estela fez o eletro mais rápido do mundo enquanto eu conversava com a esposa do paciente.
Quando notei que eles saíram do consultório, toquei o interfone:
- Estela, rápido com o desinfetante.
- Estou indo doutor, a cadeira da sala de espera também está “batizada”.